Via Francigena na Itália: história e paisagens maravilhosas

2

Já imaginou percorrer a pé uma estrada que passa por 4 países, numa rota milenar que atravessa campos, montanhas, lagos e até a primeira estrada construída pelos romanos? Essa é a experiência de fazer uma peregrinação na Via Francigena, a mais importante rota em direção à Roma na Idade Média.

peregrino
Um peregrino que está andando desde Inverness, na Escócia, até o sul da Itália

Também conhecida na Itália como “Via Romea Francigena” (em tradução livre, “a estrada para Roma que vem da França”), a rota na verdade tem seu ponto de origem além do Canal da Mancha, na cidade inglesa de Canterbury. França, Suíca e Itália completam a lista de países cortados pela Via Francigena, mencionada pela primeira vez num pergaminho do ano 876, embora já fosse bastante utilizada bem antes por soldados, comerciantes e peregrinos que viajavam para visitar a Santa Sé e o túmulo dos apóstolos Pedro e Paulo. Embora muitos viajantes terminassem sua peregrinação em Roma, outros continuavam descendo a Itália pela região do Lácio até chegar ao porto de Brindisi, de onde embarcavam em direção à Terra Santa.

via francigena
Chegar na “cidade eterna” a pé tem um gostinho todo especial, afinal de contas como diz o ditado, todos os caminhos levam a Roma.

montanhas

Daí a importância da Via Francigena, que liga dois dos três principais destinos das peregrinações medievais – Roma e Jerusalém – faltando apenas Santiago de Compostela na Espanha. Mas o mais interessante é que a Via Francigena não é uma estrada, e sim um conjunto de caminhos alternativos que foram sendo utilizados e esquecidos ao longo dos séculos conforme a situação política mudava, o comércio se desenvolvia, conflitos aconteciam e relicários de determinados santos pelo caminho tornavam-se mais ou menos populares.

Por isso é difícil definir uma só rota para a Via Francigena e também determinar precisamente sua extensão (são aproximadamente 1800km), mas um diário de viagem do final do século X tem ajudado os aspirantes a peregrinos a planejar seu trajeto. Foi em 990 que o Arcebispo da Cantuária, Sigerico, fez a viagem de Canterbury até Roma para receber seu pálio das mãos do Papa. No caminho de volta ele registrou as 79 paradas que fez pelo caminho, um itinerário que ainda hoje centenas de peregrinos escolhem seguir todos os anos a pé, de bicicleta ou cavalgando.

Viaje com internet no seu celular

Vai viajar para o exterior? Já chegue no seu destino com o celular funcionando. A EasySim4u oferece plano de dados ilimitados em 140 países, para que você fique conectado a internet. Utilize o cupom exclusivo para leitores do blog APRENDIZDEVIAJANTE e receba frete gratuito! Veja meu post: Chip EASYSIM4U: Como usar a Internet na Europa.

Via Francigena
A popularidade da Via Francigena nem se compara com a do Caminho de Santiago, mas desde que recebeu o título de Rota Cultural Europeia e teve sua importância histórica reconhecida no mesmo nível da rota espanhola, o governo italiano tem se dedicado a restaurar esses caminhos para atrair mais peregrinos. A iniciativa foi abraçada por peregrinos experientes, instituições religiosas, secretarias de turismo e até donos de restaurantes e pousadas, que armados de mapas, tinta e pincel saíram para sinalizar as trilhas da Via Francigena e nos ajudar a descobrir seus tesouros.

Como parte do Italian Wonder Ways eu pude conhecer parte da Via Francigena del Sud, o conjunto de estradas ainda menos conhecido pelos peregrinos, que segue de Roma até Brindisi. Começamos nossa aventura em Formia, ao sul de Roma, e durante 6 dias fomos subindo, passando por Itri, Fondi, Terracina, Priverno, Anagni, Piglio e Nemi antes de chegar em Roma. Essas foram as atrações que descobri pelo caminho:

Via Appia

A mais antiga estrada romana, construída pro volta de 312 a.C. para facilitar o deslocamento militar até o Mediterrâneo, caminhar pela Via Appia hoje em dia é uma experiência muito interessante. Imaginar que sobre aquelas pedras passavam carruagens levando líderes militares do Império Romano até campos de batalha, a influência da estrada no desenvolvimento da economia, o surgimento de centenas de vilas, cidades, hospedagens, bares, estábulos e tantos outros lugares, desbravando o território onde antes só existia vegetação…

via-appia dsc_0173

O que começou como uma estrada de 300 quilômetros ligando Roma a Cápua posteriormente dobrou de tamanho para chegar até Brindisi, no “salto” da bota da península italiana. A Via Appia foi uma das obras mais ousadas do império e não dá nem para mensurar sua importância para a história do ocidente, é um desses lugares que apesar de “não ter muita coisa pra ver”, tem tudo!

via francigena
O hotel Foro Appio ocupa o espaço de uma antiga paragem romana, com estábulos e locais de apoio para os soldados romanos que viajavam pela Via Appia. O lugar é muito bem preservado, foi mencionado até pelo poeta romano Horácio, deve ser muito interessante dormir num quarto tão cheio de história!

Formia

A pequena cidade de Formia tem opções ao ar livre para todos os tipos de peregrinos – dá pra visitar a praia, o centrinho histórico e subir 1500m até o topo das montanhas no mesmo dia. Construída ao longo da antiga Via Appia como a maioria das cidades que visitamos, Formia abriga um mosteiro beneditino do século XVI (a Parocchia Sant’Erasmo, onde Santo Erasmo supostamente foi assassinado no século III), o mausoléu de Cícero, uma cisterna romana que data do século I a.C. e muitas outras igrejas, ruínas e villas.

torre-de-castellone
A Torre de Castellone, a única das 12 torres ao longo da muralha da vila a continuar de pé

formia-2

Itri

Palco de batalhas por causa de sua proximidade com um importante estreito da Via Appia que cortava o Monte Aurunci, Itri foi fundada à medida que a estrada foi sendo mais utilizada e seus primeiros moradores tinham como endereço a própria Via Appia. Algumas marcas desses período ainda podem ser vistas nas construções da cidade, que teve 75% de seus edifícios destruídos durante a Segunda Guerra.

castelo-medieval-de-itri-4 itri-2

Uma das atrações mais importantes da cidade é o Castelo Medieval de Itri, construído em 882 e que oferece uma vista linda de toda região. Mas foram as famosas azeitonas Gaeta que roubaram a cena da nossa visita – as azeitonas típicas da cidade são a matéria prima de um dos azeites mais deliciosos (e premiados!) da Itália.

Fondi

Apesar de ter adorado conhecer o Castelo Caetani, o Museu Judaico de Fondi e me perder pelas vielas do centro da cidade, não dá para competir com o Mosteiro de San Magno. Reconstruído no começo do século XV e com uma história que data desde o século VI (ele é o mais antigo da Itália central, quiçá do país), o mosteiro tem a filosofia de acolher toda e qualquer pessoa que cruze seus portões.

Via Francigena
O recém inaugurado Museu Judaico de Fondi fica no coração do centro histórico da cidade
dentro-do-mosteiro-de-san-magno
Mosteiro de San Magno
mosteiro-de-san-magno-2
Mosteiro de San Magno

A paz que esse lugar transmite é quase palpável – visitantes são recebidos e têm seus pés lavados pelo monge responsável pelo mosteiro, que também oferece acomodação e comida de graça para os peregrinos. Foi lá que encontramos nosso primeiro “peregrino de verdade”, o belga Michel Goletti, que havia partido de Inverness na Escócia há 130 dias com sua cadela Laika e caminhava em direção ao sul da Itália.

mosteiro-de-san-magno-4
Os afrescos do século XI que decoram a capela foram descobertos após passar mais de 500 enterrados

Terracina

Essa cidade litorânea a pouco mais de 100km de Roma vê sua população dobrar de número durante o verão, mas engana-se quem pensa que Terracina só tem praias. Seu nome original, Anxur (Júpiter, patrono da cidade), entrega uma parte do seu passado – Terracina foi fundada pelo povo volsco e só posteriormente conquistada pelos romanos, o que resultou numa mistura de referências culturais e arquitetônicas e transformou a cidade num verdadeiro museu a céu aberto.

vista-de-terracina-2
As ruínas do templo de Giove Anxur, dedicado ao deus Júpiter, oferecem essa vista da baía de Terracina

As principais atrações da cidade são o Templo de Giove Anxur, o Parco della Rimembranza (parque, memorial da Primeira Guerra e um oásis no centro histórico da cidade), a Catedral de Terracina na pracinha principal, a Igreja do Purgatório (único exemplar de arquitetura barroca na cidade e decorada com afrescos de esqueletos), entre outras ruínas, templos e pracinhas. Além de parade obrigatória para os peregrinos caminhando na Via Francigena do Sul, Terracina é também uma boa opção de bate e volta a partir de Roma.

catedral-de-terracina
Catedral de Terracina

terracina-5

Abadia de Fossanova

Um detalhe interessante sobre a Via Francigena é que em vez de ligar cidades, assim como as outras estradas romanas, a VF conectava abadias. E uma das abadias mais importantes do trajeto fica perto de Priverno: a Abadia de Fossanova, inaugurada em 1208 e famosa por ser o lugar onde São Tomás de Aquino morreu, em 1274.

abadia-de-fossanova-2

A abadia é um dos grandes monumentos góticos italianos, e impressiona tanto pela sua grandiosidade quanto pela simplicidade do seu interior todo em pedra. O objetivo era construir uma igreja que tivesse apenas o essencial, onde o foco fosse a espiritualidade e não os ornamentos. Na Abadia de Fossanova ainda pode-se visitar o quarto onde São Tomás passou seus últimos dias de vida (o guia nos contou que ele estava viajando muito doente, sabia que seria fatal e queria muito morrer numa abadia).

Via Francigena: dicas práticas

  • O site oficial da Via Francigena oferece informações valiosas para quem planeja fazer essa caminhada, com itinerários, mapas de todos os países cortados pela estrada, aplicativo para celular, a credencial oficial de peregrino e lista de onde dormir durante sua peregrinação.
  • Quando ir: dê prioridade ao meses de maio/junho ou setembro/outubro, respectivamente primavera e outono no hemisfério norte, para não passar tanto calor e nem sofrer viajando no inverno;
  • O que vestir: nada de jeans e chinelo, usar roupas leves e próprias para caminhada é essencial quando se pretende passar dias a fio na estrada. Invista numa boa bota de caminhada, peças de roupa tecnológicas que facilitem a evaporação do suor, um bom casaco corta vento, meias anti-calos, um boné e sombrinha/capa de chuva;
  • Por causa da menor oferta de hospedagem ao longo da Via Francigena, a maioria dos visitantes prefere acampar. Entretanto o número de locais oferecendo acomodação gratuita ou com desconto para peregrinos na Itália está aumentando – clique aqui para ver a lista completa na Via Francigena;
  • E o mais importante: encomende sua Credencial do Peregrino! Ela funciona como uma carteira de identidade, comprovando que você está fazendo uma peregrinação e possibilita o acesso a esses locais de repouso ao longo do caminho.
via francigena
Bônus: você vai ter um souvenir de viagem com carimbos de todos os lugares em que passar!

O Aprendiz de Viajante foi convidado para participar da primeira press trip do Italian Wonder Ways , um projeto que reuniu jornalistas, blogueiros e influencers do mundo todo com o objetivo de promover os caminhos de peregrinação na Itália e desenvolver o turismo sustentável na região. São cinco caminhos independentes (Via Francigena, Cammino Francescano della Marca/Via Lauretana, Via Amerina, Via di Francesco e Cammino di San Benedetto) que cortam o país passando por reservas naturais, vilas medievais, catedrais, rios, plantações, mosteiros e locais importantes para a história do catolicismo no país. Toda a viagem foi custeada pelos patrocinadores, mas isso não interfere com o conteúdo publicado no blog. Nós temos total liberdade para escrever sobre o que quisermos

Quem viajou representando o Aprendiz de Viajante foi a Thaís, que mora em Londres e escreve o blog Sete Mil Km. Siga a Thaís também no Instagram.


Vai Viajar?

Assine a Revista Aprendiz de Viajante! Assine a revista por R$ 120,00 + chip com 30 dias de internet ilimitada gratuita para usar em mais de 140 países!!!! Você sabia que o chip mais barato, de 5 dias, custa mais caro que a assinatura??? Então aproveite!!!! Assine agora.

Não esqueça de fazer o seu Seguro de Viagem, pois ele é obrigatório nas viagens para a Europa. Mesmo nos Estados Unidos, é altamente recomendado, pois como não existe saúde pública no país, qualquer problema mínimo de saúde pode resultar numa conta altíssima de hospital ou pronto socorro. Nós não viajamos sem seguro nunca. Faça sua cotação para encontrar o seguro que você precisa. Você pode pagar em até 12x no cartão ou ter desconto de 5% no boleto. Nossos leitores ainda recebem um desconto de 5% na hora de pagar. Use o código promocional: APRENDIZ5.

Reserve o seu hotel no nosso parceiro Booking

Precisa alugar um carro? Reserve o carro na RentCars. A cobrança será feita sempre em reais, sem IOF e você ainda vai poder dividir em até 12 parcelas no cartão de crédito ou ter um de 5% no boleto bancário.

Saia do Brasil com seu chip internacional já funcionando no celular.


2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Comente!
Por favor entre seu nome aqui